| A palavra fotografia, que é originada das palavras gregas luz e escrita, foi usada pela primeira vez por Sir John Herschel, em 1839, ano em que a invenção do processo fotográfico foi trazido a público. A fotografia não tem um único inventor, pois resulta da composição de experiências diversas, que estimularam pelo menos uma dezena de pesquisadores diferentes. Apenas alguns destes obtiveram sucesso: Joseph Nicephore NIÉPCE, Louis J. M. DAGUÉRRE, e Hippolyte BAYARD na França, William Henry TALBOT na Inglaterra e Hércules FLORENCE, no Brasil. Cada um deles empregava uma de duas tecnologias que eram a muito conhecidas, mas que nunca haviam sido combinadas com sucesso. A primeira destas técnicas era ótica. Desde o século XVI, artistas e cientistas faziam uso do fato de que, quando a luz pssava por um pequeno orifício na parede de uma sala escura ou CAMARA OBSCURA, projetava uma imagem invertida na parede oposta. | Primeira ilustração publicada da Câmara Escura, 1545 |
| Este fenômeno é encontrado em relatos chineses sobre Mo Tzu que remontam ao século V antes de Cristo e também do filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.) apontado como o responsável pelos primeiros comentários esquemáticos da Camera Obscura! Séculos de ignorância e superstição ocuparam a Europa, sendo os conhecimentos gregos resguardados no oriente. Um erudito árabe, Ibn al Haitam (965-1038), o Alhazem, observa um eclipse solar com a câmara escura, na Corte de Constantinopla, em princípios do século XI. Nos séculos seguintes a Câmara Escura se torna comum entre os sábios europeus, para a observação de eclipses solares, sem prejudicar os olhos. Entre eles o inglês Roger Bacon (1214-1294) e o erudito hebreu Levi ben Gershon (1288-1344). Em 1521, Cesare Cesariano, discípulo de Leonardo da Vinci, descreve a Câmara Escura em uma anotação e em 1545, surge a primeira ilustração da Câmara Escura, na obra de Reiner Gemma Frisius, físico e matemático holandês. | |
| No século XIV já se aconselhava o uso da câmara escura como auxílio ao desenho e à pintura. Leonardo da Vinci (1452-1519) fez uma descrição da câmara escura em seu livro de notas sobre os espelhos, mas não foi publicado até 1797. Giovanni Baptista della Porta (1541-1615), cientista napolitano, em 1558 publicou uma descrição detalhada sobre a câmara e seus usos no livro Magia Naturalis sive de Miraculis Rerum Naturalium. Esta câmara era um quarto estanque à luz, possuía um orifício de um lado e a parede à sua frente pintada de branco. | Câmara escura montada numa liteira |
| Quando um objeto era posto diante do orifício, do lado de fora do compartimento, a sua imagem era projetada invertida sobre a parede branca. Em 1620, o astrônomo Johannes Kepler utilizou uma Câmara Escura para desenhos topográficos. O jesuíta Athanasius Kircher, erudito professor de Roma, descreveu e ilustrou uma Câmara Escura em 1646, que possibilitava ao artista desenhar em vários locais, transportada como uma liteira e em 1685, Johan Zahn descreve a utilização de um espelho, para redirecionar a imagem ao plano horizontal, facilitando assim o desenho nas câmaras portáteis, usado como auxílio para artistas. | |
| A segunda tecnologia era química. Em 1604, o cientista italiano Ângelo Sala, observa que um certo composto de prata se escurecia quando exposto ao sol. Acreditava-se que o calor era o responsável. Anos antes, o alquimista Fabrício tinha feito as mesmas observações com o cloreto de prata. Em 1727, Johann Heinrich Schulze descobriu que certas substâncias, especialmente ao haletos de prata, tornavam-se escuros quando expostos à luz. A primeira tentativa de usar tais produtos para registrar uma imagem numa câmara escura foram feitos - sem sucesso - por Thomas WEDGWOOD por volta de 1800. Em 1793, junto com o seu irmão Claude, oficial da marinha francesa, Joseph Nicéphore NIÉPCE (1765-1833) tenta obter imagens gravadas quimicamente com a câmara escura, durante uma temporada em Cagliari. Aos 40 anos, Niépce se retirou do exército francês para dedicar-se a inventos técnicos, graças à fortuna que sua família havia realizado com a revolução. Nesta época, a litografia era muito popular na França, e como Niépce não tinha habilidade para o desenho, tentou obter através da câmera escura uma imagem permanente sobre o material litográfico de imprensa. Recobriu um papel com cloreto de prata e expôs durante várias horas na câmera escura, obtendo uma fraca imagem parcialmente fixada com ácido nítrico. Como essas imagens eram em negativo e Niépce queria imagens positivas que pudessem ser utilizadas como placa de impressão, determinou-se a realizar novas tentativas. |
| Após alguns anos, Niépce recobriu uma placa de estanho com betume branco da Judéia que tinha a propriedade de se endurecer quando atingido pela luz. Nas partes não afetadas, o betume era retirado com uma solução de essência de alfazema. Em 1826, expondo uma dessas placas durante aproximadamente 8 horas na sua câmera escura fabricada pelo ótico parisiense Chevalier, conseguiu uma imagem do quintal de sua casa. Apesar desta imagem não conter meios tons e não servir para a litografia, todas as autoridades na matéria a consideram como "a primeira fotografia permanente do mundo". Esse processo foi batizado por Niépce como Heliografia, gravura com a luz solar. Primeira fotografia, 1826 Heliografia do Cardeal D´Amboise Foi através dos irmãos Chevalier, famosos óticos de Paris, que Niépce entrou em contato com outro entusiasta , que procurava obter imagens impressionadas quimicamente: Louis Jacques Mandé Daguerre (1787-1851). Este, durante alguns anos, causara sensação em Paris com o seu "diorama", um espetáculo composto de enormes painéis translúcidos, pintados por intermédio da câmera escura, que produziam efeitos visuais (fusão, tridimensionalidade) através de iluminação controlada no verso destes painéis. Niépce e Daguerre durante algum tempo mantiveram correspondência sobre seus trabalhos. Em 1829 firmaram uma sociedade com o propósito de aperfeiçoar a heliografia, compartilhando seus conhecimentos secretos. A sociedade não deu certo. Daguerre, ao perceber as grandes limitações do betume da Judéia, decidiu prosseguir sozinho nas pesquisas com a prata halógena. Suas experiências consistiam em expor, na câmera escura, placas de cobre recobertas com prata polida e sensibilizadas sobre o vapor de iodo, formando uma capa de iodeto de prata sensível à luz. Dois anos após a morte de Niépce, Daguerre descobriu que uma imagem quase invisível, latente, podia-se revelar com o vapor de mercúrio, reduzindo-se, assim, de horas para minutos o tempo de exposição. Conta a história que uma noite Daguerre guardou uma placa sub-exposta dentro de um armário, onde havia um termômetro de mercúrio que havia se quebrado. Ao amanhecer, abrindo o armário, Daguerre constatou que a placa havia adquirido uma imagem de densidade bastante satisfatória, tornara-se visível. Em todas as áreas atingidas pela luz, o mercúrio criara um amálgama de grande brilho, formando as áreas claras da imagem. |
| Em 7 de janeiro de 1839 Daguerre divulgou o seu processo e em 19 de agosto do mesmo ano, na Academia de Ciencias de Paris, tornou o processo acessível ao público. A invenção de Daguérre, que foi comprada pelo governo francês e tornada pública em 19 de Agosto de 1839, produzia uma espécie de pintura em metal, o DAGUERREÓTIPO. Em meio a tantas tentativas de produzir uma fotografia, uma delas foi extremamente importante para nós, brasileiros, embora pouquíssimas pessoas tenham conhecimento da vida e obra do artista e pesquisador Hércules Florence. O francês de Nice, Antoine Hercules Romuald Florence, chegou ao Brasil em 1824, e durante os 55 anos que viveu no Brasil até a sua morte, na Vila de São Carlos (Campinas), aplicou-se a uma série de invenções. Entre 1825 e 1829, participou como desenhista de uma expedição científica chefiada pelo Barão Georg Heirich von Langsdorff, cônsul geral da Rússia no Brasil. De volta da expedição, Florense casou-se com Maria Angélica Alvares Machado e Vasconcelos, em1830. Nesse mesmo ano, diante da necessidade de uma oficina impressora, inventou seu próprio meio de impressão, a Polygraphie, como chamou. Seguindo a meta de um sistema de reprodução, pesquisou a possibilidade de se reproduzir pela luz do sol e descobriu um processo fotográfico que chamou de Photographie, em 1832, como descreveu em seus diários da época anos antes da Daguerre. Em 1833, Florence fotografou através da câmera escura com uma chapa de vidro e usou um papel sensibilizado para a impressão por contato. Desta maneira, totalmente isolado e sem conhecimento do que realizavam seus contemporâneos europeus, Niépce, Daguerre e Talbot, Florence obteve o resultado fotográfico. O grande pesquisador francês e detalhes do seu processo fotográfico |
| Na Inglaterra, descendente de nobre família, membro do parlamento britânico, escritor e cientista aficionado, Willian Henry Fox-Talbot usava a câmera escura para desenhos em suas viagens. Na intenção de fugir da patente do daguerreótipo em seu país e solucionar suas limitações técnicas, pesquisava uma fórmula de impressionar quimicamente o papel. Talbot iniciou suas pesquisas fotográficas, tentando obter cópias por contato de silhuetas de folhas, plumas, rendas e outros objetos. O papel era mergulhado em nitrato e cloreto de prata e depois de seco, fazia seu contato com os objetos, obtendo-se uma silhueta escura. Finalmente o papel era fixado sem perfeição com amoníaco ou com uma solução concentrada de sal. Às vezes, também era usado o iodeto de potássio. No ano de 1835, Talbot construiu uma pequena câmera de madeira, com somente 6,30 cm2, que sua esposa chamava de "ratoeiras". A câmera foi carregada com papel de cloreto de prata, e de acordo com a objetiva utilizada, era necessário de meia a uma hora de exposição. A imagem negativa era fixada em sal de cozinha e submetida a um contato com outro papel sensível. Desse modo a cópia apresentava-se positiva sem a inversão lateral. | |
| | A mais conhecida imagem de Talbot mostra a janela da biblioteca da abadia de Lacock Abbey, considerada a primeira fotografia obtida pelo processo negativo/positivo. |
| As imagens de Talbot eram bastante pobres, devido ao seu reduzido tamanho de 2,50 cm2, se comparadas com a heliografia de Niépce, com cerca de 25X55 cm, obtida nove anos antes. Sua lentidão, seu tamanho e sua incapacidade de registrar detalhes não causava interesse ao público, quando comparados aos daguerreótipos. Em 1839, quando chegam na Inglaterra os rumores do invento de Daguerre, Talbot aprimorou suas pesquisas, e precipitadamente publicou seu trabalho e apresentou à Royal Institution e à Royal Socity. Sir Herchel logo concluiu que o tiossulfato de sódio seria um fixador eficaz e sugeriu os termos: fotografia, positivo e negativo. Um ano após, o material sensível foi substituído por iodeto de prata, sendo submetido, após a exposição, a uma revelação com ácido gálico. Mas para as cópias continuou a usar o papel de cloreto de prata. O processo que inicialmente foi batizado de Calotipia, ficou conhecido como Talbotipia e foi patenteado na Inglaterra em 1841. Talbot comprou uma casa em Reading, contratou uma equipe para produzir cópias, fotografou várias paisagens turísticas e comercializava as cópias em quiosques e tendas artísticas em toda a Grã Bretanha. Como o negativo da talbotipia era constituído de um papel de boa qualidade como base de sensibilização, na passagem para o positivo se perdiam muitos detalhes devido a fibrosidade do papel. Muitos fotógrafos pensavam em melhorar a qualidade da cópia utilizando como base o vidro. O ano de 1851 foi muito significativo para a fotografia. Na França morre Daguerre. Na Grã Bretanha, como fruto da revolução industrial, é organizada a "Grande Exposição", apresentando os últimos modelos produzidos. Um invento que em pouco tempo chegou a suplantar todos os métodos existentes, foi o processo do "colódio úmido", de Frederick Scott Archer, publicado no "The Chemist" em seu número de março. Este obscuro escultor londrino, com grande interesse pela fotografia, não estava satisfeito com a qualidade das imagens, deterioradas pela textura fibrosa dos papéis negativos, e sugeriu uma mistura de algodão de pólvora com alcool e éter, chamada colódio, como meio de unir os sais de prata nas placas de vidro. A fotografia agora tinha condições de crescer em popularidade e em quantidade de aplicações do colódio, que durou 30 anos. O número de retratistas aumentou consideravelmente, pessoas de todas as classes sociais desejavam retratos e, se estendeu o uso de uma adaptação barata do processo colódio chamada Ambrotipo. |
A capacidade da fotografia de repetir-se com exatidão e num número infinito através do processo negativo-para-positivo foi uma mudança radical. A outra era que, qualquer imagem era criada pela natureza, independente das inevitáveis distorções feitas pelas formas de representação até então conhecidas, como a pintura ou a escultura.
Ao mesmo tempo que a facilidade do uso da fotografia disseminava-se pelo mundo, vinham à tona discussões sobre a natureza da fotografia, havendo muitos que a consideravam tão somente uma cópia grosseira da realidade, não podendo ser considerada como Arte. Outros viam na fotografia o fim da pintura. Nenhuma dessas visões permaneceu. Pintores continuam a pintar até os dias de hoje e os fotógrafos proliferaram, não apenas como copiadores da natureza, mas donos de uma linguagem e expressão próprias, firmando-se com uma das artes mais difundidas no mundo.
Se a fotografia confundia os teóricos, era muito bem recebida pelos praticantes. Misteriosos e trabalhosos pelos padrões de hoje, os processos primitivos eram entretanto fáceis de aprender, e o meio espalhou-se rapidamente pela Europa e América. A fotografia atraía alguns artistas e pesquisadores, mas a maioria dos primeiros fotógrafos era indistinguível: artesãos, trabalhadores de todo tipo, e como a maioria dos precursores da história, muitos amadores versáteis. Estes indivíduos não compartilhavam nem uma tradição comum ou uma intenção uniforme.